
Estou com os dias contados para correr mais uma maratona, isso significa que nos ultimos três meses corri muito, cinco vezes por semana encarei as ruas de São Paulo, tendo por companhia muitos carros, motos, cachorros e gente. Correr proporciona a possibilidade de ver a cidade por outros angulos. Vejo pessoas falando alto sem interlocutor, vejo mulheres chorando, homens aflitos no ponto de onibus tentando voltar pra casa, crianças abandonadas, mendigos lutando pelo pão de cada dia.
Enquanto corro expulso demônios, não aqueles que habitam as “regiões celestes”, expulso aqueles que estão dentro de mim, aqueles que, como bicho de goiaba devoram partes precisosas de minha alma. Alguns dão muito trabalho, antes eu pensava que esses demônios eram bons de briga, descobri que a dificuldade em derrotá-los não é força que eles possuem, a dificuldade está no fato de que eu gosto deles, talvez porque eles me levam a projetar uma vida idealizada, pautada em todos os meus sonhos, esqueço que estou correndo, sinto que começo a flutuar, imaginando outra vida que não a minha. De repente o demônio me empurra, se diverte com minhas ingenuidades e me coloca na vida novamente.
Duas horas depois chego em casa, com vergonha na alma, olho nos olhos da Carol, brinco com meus filhos e penso: “Pra que outra vida?”.
Descobri a razão de minha paixão pela corrida: eu sempre volto pra casa, pra vida, minha Vida.
Villy Fomin



