Sexta-feira, Outubro 23

mInHa vIdA


Estou com os dias contados para correr mais uma maratona, isso significa que nos ultimos três meses corri muito, cinco vezes por semana encarei as ruas de São Paulo, tendo por companhia muitos carros, motos, cachorros e gente. Correr proporciona a possibilidade de ver a cidade por outros angulos. Vejo pessoas falando alto sem interlocutor, vejo mulheres chorando, homens aflitos no ponto de onibus tentando voltar pra casa, crianças abandonadas, mendigos lutando pelo pão de cada dia.

Enquanto corro expulso demônios, não aqueles que habitam as “regiões celestes”, expulso aqueles que estão dentro de mim, aqueles que, como bicho de goiaba devoram partes precisosas de minha alma. Alguns dão muito trabalho, antes eu pensava que esses demônios eram bons de briga, descobri que a dificuldade em derrotá-los não é força que eles possuem, a dificuldade está no fato de que eu gosto deles, talvez porque eles me levam a projetar uma vida idealizada, pautada em todos os meus sonhos, esqueço que estou correndo, sinto que começo a flutuar, imaginando outra vida que não a minha. De repente o demônio me empurra, se diverte com minhas ingenuidades e me coloca na vida novamente.

Duas horas depois chego em casa, com vergonha na alma, olho nos olhos da Carol, brinco com meus filhos e penso: “Pra que outra vida?”.

Descobri a razão de minha paixão pela corrida: eu sempre volto pra casa, pra vida, minha Vida.

Villy Fomin

Quarta-feira, Outubro 21

eSperAnça


Sábado, 8 de setembro, saio de casa as 17h para um congresso de jovens da igreja Batista. Estava bravo comigo mesmo, “pra que assumir um compromisso em um feriado?”, “poderia ficar com a Carol e as crianças...” Fui para o encontro reclamando.

Um rapaz me acompanhou até local, fomos conversando sobre a vida. A reunião foi em um bairro carente da zona sul de São Paulo, Jardim Jacira. Ir pra lá já é um desafio, é longe e o apartheid fica bem evidente. Saí do meu gueto burguês e fui pregar onde a vida é cruel.

Quando a reunião começou fui invadido por uma alegria ‘sem causa’. Olhava ao redor e via os jovens celebrando a Cristo, expressões de alegria pela vida.

O tema do encontro: “Transformando o caráter e mudando realidades”. Estava rodeado de pessoas que lutam para viver, mas eles estão preocupados com os outros, queriam mudar a vida da comunidade, ao invés de esperar pelo milagre pessoal eles querem a transformação da comunidade. Lindo.

No inicio do encontro um rapaz disse: “Nos preocupamos muito com o céu e esquecemos de cuidar da vida aqui na terra, mas é aqui que vivemos, vamos juntos mudar nossa realidade”. Me senti em casa.

Conheci o pastor Laudemir e outros irmãos que lutam para que as pessoas vejam as boas obras e glorifiquem a Jesus. O Reino de Deus está sinalizado no Jardim Jacira.

Saí daquele ginásio chorando, mais uma vez fiquei de frente com meus valores fúteis, mas também sai vibrando porque Deus ainda tem na terra homens e mulheres dos quais o mundo não é digno.

Villy Fomin

cUras, cUras e mAis cuRaS


Farei uma confissão: Ouço programas evangélicos, quando estou no transito sou acompanhado por algum pastor neopentecostal. A “memória 2” do som do meu carro é só de rádios evangélicas. Hoje isso soa como confissão de pecado. Esses programas são mal feitos, a maior parte do tempo é utilizado para a oferta com o fim de “permancer no ar e continuar sendo uma benção”.

Meus amigos não entendem porque eu faço isso, mas todo drogado é assim, ele sabe que faz mal, mas...

Com esse (péssimo) hábito ouço muitas pregações sobre sucesso, testemunhos de vitória financeira (“você pode tudo”) e cura. Mas é cura de dor nas costas, no braço, na unha... Eles não curam síndrome de Down, Alzheimer e nem vão ao GRAAC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer). Por que? O deus que cura dor nas costas não cura câncer? Estranho, no mínimo estranho.

Karl Marx acertou, a religião é mesmo “o ópio do povo”. É isso que o povo quer, algo que anestesie a vida, quando o efeito dessa anestesia acabar (e acaba rápido) aplica-se outra e assim vai. Não se fala em coisas difíceis e derrotas, apenas em vitórias. Curas, curas e curas. Quem oferecer mais ganha mais oferta e fica mais tempo no rádio.

A função da religião não é fazer com que as pessoas se sintam bem. Então o que Deus nos dá? Amor? Sim, Deus nos ama, mas não deseja domesticar animais de estimação, dando alimento e carinho, antes ele deseja maturidade, pessoas livres que respondam a ele com liberdade.

E paz? Sim, Deus nos concede uma paz sem igual, porém não é paz que se dá quando deixamos de falar do que é ruim e doloroso. Há pessoas de todos os tipos ao nosso redor, crianças e pais, jovens e adultos, pessoas que estão sendo cruelmente maltratadas e violentadas, afligidas e desprezadas. Qualquer pregação sobre paz que dá as costas a estas situações é uma tremenda farsa.

Curioso esse fascínio pelas curas, desde os tempos de Jesus isso acontece. Jesus curou, operou milagres e maravilhas, mas quando pregou sobre a vida no reino de Deus ele não disse que os felizes eram os curandeiros nem os curados, quando Jesus falou sobre a vida feliz ele disse:

Felizes são os humildes de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os perseguidos (Mt 5). Esses são felizes porque experimentam salvação, esses são felizes porque são sal da terra e luz do mundo.

Ser cristão não tem haver com cura nem prosperidade, ser cristão é cuidar do próximo é saber se relacionar com as pessoas vendo nelas a expressão de Deus (Mt 25: 34-45).

Na bíblia quem disse “tudo isso te darei se, prostrado, me adorares” foi Satanás. "Tô" fora.

Villy Fomin

Quarta-feira, Outubro 7

prOmesSas

“É bom dar presentes às pessoas amadas. A gente pensa muito antes de comprar o presente para uma pessoa amada. Porque o que se deseja é que o presente lhe dê felicidade.

Quando eu dou um presente, com esse presente estou dizendo: “Acho que você vai se alegrar...”Uma flor, um cd, um brinquedo, um livro... Quando se fazem promessas a Deus, para assim seduzi-lo a fazer o que queremos, usamos do mesmo artifício. Assim: “Se tu me deres o que peço, eu te darei o aquilo de que gostas...”

O que você prometer a Deus revela o que você acha do caráter dele. Sendo assim, por favor, me expliquem, eu só quero entender: por que é que não fazemos promessas do tipo: Vou ler poesia meia hora por dia? Vou ouvir música ao acordar? Vou brincar com meu filho?

As promessas que se fazem a Deus são sempre promessas de sofrimento: fazer caminhdas de joelhos, passar seis meses sem beber refrigerante, fazer jejum... Então o nosso sofrimento que faz Deus feliz? Deus é sádico? Prestem atenção: não sou eu que estou dizendo. Isso não é blasfêmia minha. É blasfêmia de quem promete cascas de feridas a Deus”.

Rubem Alves

Quarta-feira, Setembro 16

mEdo


O medo é um dos ingredientes mais fortes da religião. Uma pessoa com medo é uma pessoa sensível, vulnerável, capaz de realizar práticas absurdas em busca de alívio e os líderes religiosos espertos como as serpentes perceberam isso a muito tempo.

Falamos da Graça de Jesus, mas o Deus punitivo sempre aparece em nosso roteiro, o medo nos acompanha desde a classe “cordeirinhos de Cristo”, quem não cantou:

Cuidado, olhinho, com o que vê! / Cuidado, olhinho, com o que vê! / O Salvador do céu está olhando pra você. / Cuidado, olhinho, com o que vê! Cuidado, boquinha, com o que fala! / Cuidado, boquinha, com o que fala! /O Salvador do céu está olhando pra você. / Cuidado, boquinha, com o que fala! Cuidado, mãozinha, no que pega! / Cuidado, mãozinha, no que pega! /O Salvador do céu está olhando pra você. / Cuidado, mãozinha, no que pega! Cuidado, olho, boca, mão e pé! / Cuidado, olho, boca, mão e pé! / O Salvador do céu está olhando pra você.

Imagine uma criança desenhando em seu coraçãozinho esse Deus? Depois não sabemos porque tantos cristãos tem medo de Deus e porque os adolescentes ligam Deus automaticamente a palavra NÃO...

As pregações motivam as pessoas a viver longe do pecado por causa do grande olho divino e não pela beleza de viver em busca de valores integros e éticos. Que pena, poderíamos gerar pessoas bonitas, mas por enquanto são apenas medrosas. Que pena, poderíamos gerar homens e mulheres que vivessem com o coração em Deus, cientes de seu amor impulsionados a mudar realidades, mas o que temos são pessoas tristes fazendo campanhas para conseguir algo dEle. Que pena.

Villy Fomin

Quinta-feira, Setembro 10

miTo?

"Não se deve pensar que tenha existido o paraíso nos termos em que está descrito em Gn 2,4-25. O que existiu e ainda existe é a possibilidade real de o homem realizar a perfeita harmonia e paz, quando se deixa guiar pela luz e pela força de Deus. Não se deve dizer: 'Por que Deus não deu uma segunda chance a Adão e Eva?' Ele está dando essa chance até o dia de hoje a todos nós. O problema não é de Deus nem de Adão e Eva, é nosso. O paraíso existirá e se tornará histórico quando nós o quisermos e por ele trabalharmos. A única expedição que vai poder descobrir o paraíso é aquela que embarca para o futuro".

Carlos Mesters

aLma

Já prescrutamos bastante as profundezas dessa consciência e é chegado o momento de continuarmos a examiná-la. Não o fazemos sem emoção ou estremecimento. Nada existe mais terrível que esse tipo de contemplação. Os olhos do espírito não podem encontrar em nenhum lugar nada mais ofuscante, nada mais tenebroso que o homem; não poderão fixar-se em nada mais temível, mais complicado, mais misterioso e mais infinito. existe uma coisa que é maior que o mar: o céu. Existe um espetáculo maior que o céu: é o interior de uma alma.

Victor Hugo